Muitas vezes imaginamos que a violência é a que sai estampada nas capas de jornal e revista. É um engano. A pior violência é aquela que acontece no silêncio dos dias e no abandono das noites. Esta é muito mais cruel, porque se disfarça tão bem que não a enxergamos, nem quando acontece debaixo do nosso nariz.
Quem quebra uma lâmpada de poste, pratica uma violência contra as pessoas que trafegarão por ela à noite. Quem deixa um lote vago se transformar numa selva, comete uma violência futura contra os moradores vizinhos: mais cedo ou mais tarde este lote se transformará em um covil.
Quem deixa uma casa abandonada ao tempo, monta a estrutura para um esconderijo. Quem levanta a mão para agredir sua esposa - ou seu marido - pratica uma violência contra a sociedade inteira. Ali pode estar surgindo um agressor futuro, na figura dos filhos que eventualmente presenciem este absurdo.
Quem se recusa a socorrer um cidadão, quando este passa mal na rua, é violento. Quem compra qualquer produto barato demais, é violento. Quem sonega impostos, pratica violência. Quem deixa de aplicá-los corretamente, também.
Estas violências menores é que, um dia, se traduzem no assassinato, no roubo à mão armada, no arrombamento, no furto, no estupro, na extorsão. E gostamos de nos indignar - por alguns dias - com a grande violência. O que não nos perguntamos é o porquê de nossa indignação durar apenas poucos dias.
Simples. Porque não nos preocupamos com as pequenas violências que eu apontei ali em cima. O ser humano se acomoda ao cenário, seja bom ou ruim. E não poderemos avançar muito mais como humanidade, se não aprendermos a abominar as pequenas violências de cada dia.
Esta agenda oculta precisa de anos de muita educação (ampla, geral, irrestrita) para ser entendida e quebrada. E análises frias e desapaixonadas para que a educação aconteça, abrangendo todo o corpo social em volta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário