quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

ReDropspectiva 2010 - 22 de Outubro

O chato profissional


Este sou eu, reconhecendo que uso o espaço da rede para cobrar algumas atitudes que andam em desuso. Uma delas, a responsabilidade social. Ser responsável socialmente significa ter preocupações também com a coletividade, ao lado de todos os cuidados que se tem com a vida pessoal.

Minha cidade está se corroendo numa confusão entre o que é público e o que é privado. Entre o que pertence a todos e o que pertence a um só. Entre o que diz respeito ao indivíduo e o que diz respeito a todos. Essa confusão não é boa para ninguém e traz alguns riscos terríveis embutidos nela.

O primeiro destes riscos - e talvez o mais danoso - é que nossa tradição de proteger a propriedade privada não se estende com tanto entusiasmo à proteção do bem público. E deveria se estender com mais vigor ainda, porque o que é público é pago com dinheiro de todos e tem, claro, que atender a todos de forma igualitária.

Outro risco é o de que, sem compreender racionalmente o que é o bem público, muitos se apropriam dele, no todo ou em parte, baseados no princípio desigual de que são construtores deste bem, via coleta de taxas e impostos e contribuições diversas. Vamos resumir o nome a impostos, para simplificar o entendimento.

Assim, está ficando natural usar as ruas e avenidas como estacionamento privado. Está ficando normal que as praças sejam transformadas em praças de liquidação de móveis, veículos e sabe-se lá o que está por vir. As pessoas estão se anestesiando para o fato de que são responsáveis por obedecer às filas, ceder o lugar aos mais idosos e aos portadores de necessidades especiais, não explorar economicamente serviços públicos que  elas tem a condição de custear (já que há cidadãos realmente necessitados e sem estas condições, precisando deles) e muitos outros comportamentos moralmente desprezíveis.

Tudo isso ocorrendo porque, na base, está a ganância do individualismo, em direção oposta à solidariedade e à responsabilidade social.

Muitos dos problemas de estrutura social, em João Monlevade, ocorrem desta corrosão da cidadania. Se as avenidas centrais são estacionamento privativo de comerciantes e comerciários, vai faltar sempre estacionamento para os compradores.

Se as vagas e filas reservadas aos portadores de necessidades especiais são ocupadas por gente sã de corpo e doente de espírito, vai faltar sempre o mínimo de respeito às necessidades especiais, que não recebem este nome à toa.

Se a cidade possui mais de sete milhões de IPTU atrasado para receber, este dinheiro poderia estar sendo empregado, agora mesmo, na melhoria de nossa condição de vida. Faltou responsabilidade social na quitação dos mesmos.

Prédios estão sendo construídos sem a previsão de vagas de estacionamento, sem a previsão de espaço para que o ar circule entre os mesmos, sem se pensar em quanto de impermeabilização de solo público está sendo produzida. Mais tarde, os autores destas atrocidades não terão vergonha alguma em se posar de vítimas de um "sistema perverso".

Interesses privados estão buscando fontes públicas de financiamento, custeio e apoio. Homens públicos estão exigindo ser tratados como se fossem cidadãos de vida exclusivamente privada. Entidades que serão geridas de forma privada estão sendo criadas às centenas, para obter depois dinheiro público na justificativa marota de que farão serviços que o Estado deveria executar.

Não há nação civilizada que aguente tanta esquizofrenia de comportamento. Esta confusão entre o que é individual e o que é coletivo, comum apenas às nações que abraçam a bandeira do atraso, ainda cobrará um preço exorbitante de todos nós, num futuro próximo.

Para continuar privilegiando uns poucos "escolhidos". Por isso, continuarei sendo chato profissional. Algumas lutas são nobres e justas o bastante para valer a pena o sacrifício individual. Ah, este anda raro, muito raro, ultimamente. Em João Monlevade e no mundo todo...

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