terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O fim da vida e o fim da dignidade

Um colega Perito Criminal foi condenado, se não me engano em Santa Catarina, por fazer comentários sarcásticos sobre um cadáver. O Perito havia sido convidado para proferir uma palestra em uma aula de Medicina Legal.

Entre os estudantes, encontrava-se um irmão da vítima, que se sentiu - de forma justa - ferido em sua dignidade e acionou judicialmente ao palestrante e à Faculdade, que foram condenados a pagar indenização por danos morais.

O colega de profissão que me perdoe, mas deveria procurar outro emprego. Realizar comentários jocosos sobre uma vítima é fazê-la vítima outra vez, como se isso fosse possível. 

Aprendemos na Academia toda a técnica necessária para trabalhar, mas nenhuma Instituição no mundo é capaz de ensinar valores básicos de humanidade. Ou se sai de casa com estes valores prontos ou se vai viver sem eles.

Se posso me orgulhar nesta hora, é de estar já em fase final da carreira sem ter passado por algo semelhante. Sinto dor. E é uma dor aguda, que me estraçalha por dentro há mais de quinze anos. Apesar dos anônimos da vida que aqui aportam de vez em quando, exerço minha humanidade sem receios. A cada vítima, a cada desastre, vislumbro as famílias dilaceradas na retaguarda daqueles que morrem. E sinto um pouco mais de dor.

Minha dignidade e minha humanidade preveniram que o mundo visse o surgimento de mais um monstro. As pessoas que me conhecem pessoalmente devem ter percebido que não perdi a alegria de viver, embora meus olhos já estejam cansados de presenciar a profunda tristeza da morte, em centenas de ocasiões diferentes.

Concluí, depois de muito refletir, que o fim da dignidade pode acontecer em vida. E infelizmente acontece demais. Mas o fim da vida não pode significar o fim da dignidade. Ela transcende  e ultrapassa o prazo de validade dos nossos corpos.

3 comentários:

Anônimo disse...

Célio, não o conheço, mas sou seu fã! parabéns por se expressar tão divinamente. Ler seus textos é um alento ao coração!

Célio Lima disse...

Obrigado pelo elogio. Minha política pessoal é publicar tudo que não seja criminoso, por isso já publiquei coisas horríveis ditas a meu respeito. Quando há coisas boas ditas a meu respeito, sinto que há mesmo democracia e igualdade no mundo em que vivemos. Um abraço.

Anônimo disse...

Célio,
Há profissionais dignos de muito respeito: vc mostrou que é. Puxa vida! As raríssimas vezes que vi um corpo, senti meu coração igualmente dilacerado. Todo meu respeito a você. Realmente, respeito humano a pessoa tem ou não tem,vem de berço. Siga em frente, porque pessoas iguais a vc são abençoadas e nunca perdem a alegria de viver.