domingo, 3 de maio de 2009

Não estamos em Delphos

Delphos seria a mítica cidade grega onde se encontrava o mais famoso dos oráculos, ou seja, uma entidade capaz de responder a qualquer pergunta que o consulente fizesse. Não importava se sobre o passado, o presente ou o futuro, o oráculo responderia.

Também não importava que o malvado só respondesse por mensagens cifradas, às quais os poucos que entendessem alguma coisa tinham que completar lacunas enormes. Assim, as pessoas dirigiam-se ao mais famoso dos oráculos gregos para pagar uma pequena fortuna que as fazia produzir suas próprias respostas. Mas havia o Oráculo a validar tais respostas para os olhos dos outros.

Lindo... Na Grécia começou a profissão de Despachante, com a honra de intermediar com o etéreo e o Supremo.

Não estamos em Delphos. Ninguém tem respostas para todas as perguntas. Nenhum articulista conhece de tudo o suficiente para a tudo responder. Humildemente me incluo entre os que preferem o silêncio à alternativa de falar bobagens monstruosas e de pouco ou nenhum fundamento. Não importa qual seja o assunto.

Não faço marketing pessoal, e dele não preciso. Vivo num mundo insano em que, se alguém disser que o jiló é delicioso e a laranja, uma porcaria, haverá quem acredite. Se o autor da bobagem for marqueteiro, melhor ainda. Haverá "credibilidade" permeando sua sabedoria.

Mas a realidade não fará com que seu paladar sinta um jiló agridoce, nem uma laranja amarga como a peste. Quando muito, o cérebro forçará estas informações para que elas se adequem ao que o guru da hora afirmou.

E eu não sou um guru. Desconheço quem seja, charlatanismos à parte.

E nem posso ser radicalmente contra os profissionais do marquetingue. Em sua grande maioria, são pessoas que acreditam no que fazem. E tem público para ouví-los, pelo simples motivo de sermos uma nação analfabeta em quase todos os aspectos.

Por acaso você conhece algum marqueteiro que lute pela educação do povo? Não vale um que lute por uma grife de escola chique, estou falando da Educação com "E" inicial. Eu desconheço. Pudera, uma nação que seja educada resiste a apelos charmosos que sejam desprovidos de pragmatismo.

E é de pragmatismo que precisamos. Sonhar com uma nação mais justa, mais educada, mais libertadora de miséria, isso já fazemos há séculos. E sonhar é bom, mas trabalhar para construir uma realidade a partir de nossos sonhos é fundamental.

Agenda oculta? Em vez de se perguntar se Dilma, Aécio ou Serra seriam melhores para o Brasil, acredite que são todos produtos de propaganda barata e venial. Todos precisam do seu controle e da sua raiva. Porque somos um país de bundões consolidados. Sem nossa raiva, nossa indignação e nossa reação, seremos sempre Jecas Tatus pagando mordomias para os picaretas de sempre. Mesmo que o nome e a estampa dos picaretas mude a cada eleição de que participemos.

Um abraço!

Um comentário:

Marcelinho disse...

Caro Célio,
muito oportuna sua colocação, pois, em breve teremos que voltar às urnas (diga-se de passagem, OBRIGADOS) para escolher mais uma MERDA para nos DESgovernar.
Creio na nossa mediocridade, na nossa passividade, mas, não podemos resolver os problemas que estão aí da mesma forma que foram criados. Todas as tentativas nos levarão às repetições, e com elas, os resultados sempre serão subprodutos desastrosos.
Volto aos primórdios da nossa ditadura militar (muito ruim para a democracia) que numa análise mais profunda produziu seres monstruosos, que viram uma oportunidade de num futuro não tão longe (aconteceu e acontece agora), se darem bem olhando para o próprio umbigo. Levantaram bandeiras aos gritos e nos ludibriaram com seus bordões.
Não tivemos apenas um lado ruim na herança da ditadura militar, mas sim DOIS lados ruins: os que sairam (os militares) e os que ficaram com interesses próprios.
Enquanto formos um país (isto mesmo, em minúsculo) de analfabetos (e analfabetos políticos também) estaremos com as algemas de todo e qualquer tipo de escravidão.
Abraços.