As mãos com dedos meio gordinhos ("muito leite com Toddy", segundo a avó) trabalham bem depressa. O primeiro andar já está pronto, o fosso também. Tem até jacarés dentuços igual de desenho animado.
Ele aprendeu na semana passada como fazer um castelo de areia legal. Foi sua irmã mais velha que ensinou. Irmãs mais velhas não prestam pra muita coisa, mas - rapaz! - modelar na areia molhada é mara!
Dá uma pausa para ir comprar um picolé de limão. Depois, uma pisadinha de leve na água, que está muito azul e bem morna, uma delícia. O papel e o palito de picolé vão para uma sacolinha de TNT, que é igualzinha à do carro, para guardar lixinhos.
Olhando em volta, enxerga um bocado de lixões espalhados. Faz uma careta. Seria mais legal se todo mundo usasse uma sacolinha de TNT...
Bom, hora de começar as torres. É a hora mais difícil, porque a areia não sobe tão alto quanto ele queria. E é muito pouco tempo pra terminar. "Por que a mãe tem de proibir a gente de curtir antes das quatro?"
O tempo, claro, anda muito mais depressa quando a gente se diverte. E o mar não se interessa tanto por um futuro arquiteto, mais do que por qualquer outro. Por isso, quando as primeiras ondas começam a destruir todo o trabalho do dia, é muito natural fazer o que todo mundo espera de um poderoso arquiteto de oito anos: abrir um chororô.
- Ei, ei, o que foi?
- Mãe, o mar tá acabando com meu castelo!
- Ah, você construiu muito perto da água... A Nanda não te ensinou que a gente constrói um tiquinho mais longe? Assim a maré não derruba os castelos.
- Não, ela é uma chata gosmenta.
- Paulo César, isso são modos? Peça desculpas agora para sua irmã!
- Eu, não. Ela não me ensinou direito por maldade...
De longe, ele jura para si mesmo que a irmã está falando sem som: "- Bestão..." só para ele ver.
O jeito é soluçar menos, fazer de conta que não liga, olhar com aquela cara de cachorrinho largado que ele sabe que sempre funciona.
- Mãe, pai, amanhã a gente pode voltar pra eu fazer outro, certinho dessa vez?
Nanda revira os olhos. O pai dá de ombros. A mãe, como é de acontecer, toma a decisão por todos:
- Tá certo. Mas você não está com raiva por causa do castelo que caiu?
- Não. Eu tô com raiva é da maré...
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