quinta-feira, 4 de março de 2010

Governante ou estadista?


Vamos continuar a análise. Empresários só se relacionam com esferas de governo em duas instâncias: como parasitas ou como comensais. O parasita consome o sangue, e o comensal é aquele que aproveita as oportunidades que "sobram" do organismo maior ou principal, sem causar dano a saúde dele. Até auxiliam para que tenha uma vida melhor, em muitos casos.

Claro, há os empresários de verdade, que assumem o risco e o lucro de seus negócios sozinhos. Estes ajudam qualquer nação onde estejam, mas são raros.

Vamos aos empresários parasitas: se não houver um governo disposto a abrir as autoestradas, nenhum deles terá coragem de se arriscar a abrir uma picada de mula e instalar seu negócio. Arriscar a perder dinheiro? Nunca. Só se for o do povo.

Pior ainda é aquele que só existe para servir a governos, sejam quais forem. A corrupção endêmica do Brasil nasce aí.

Na dúvida, vamos tolerar os que possuem algum negócio porque o Estado deu-lhes a oportunidade. Pelo menos geram empregos e movimentam a economia.

Os empresários comensais vão além: enxergam a possibilidade e continuam as obras que o Estado iniciou, ampliando suas possibilidades. Geram muito mais empregos e mantém funcionando a roda do desenvolvimento, quase sempre gerando ainda mais desenvolvimento à sua volta.

Transportando para a realidade de João Monlevade, qual seria hoje a rota de destino do estadista? O centrão ou as periferias que não sejam tão confinadas por montanhas mais altas? A resposta é fácil, mas a solução não é simples.

Como eu afirmei, às vezes o governo perde dinheiro numa ponta para beneficiar a maioria em outra. Nosso maior exemplo é o Bairro São João. Não possui geografia que permita expansões, mas precisa de Estado com urgência, ou vamos perdê-lo como um lugar digno para se viver. O São João é uma favela embrionária, em formação, com indicadores de violência e abandono que já teriam acendido a luz de alerta em qualquer lugar do mundo civilizado. Muitos governos passados tem sua parcela de responsabilidade ausente, ali.

Seria um dos pontos em que seria aceitável perder algum dinheiro público, para salvar o futuro da cidade inteira daqui a alguns anos. esta ´[e a base do investimento estruturante.

O estadista enxerga estas questões, e pensa em quanto dinheiro é justo haver uma certa perda. Além deste limite, não faz, por respeito à maioria dos habitantes de um lugar.

Dentre muitos outros fatores, o Hospital que se chamaria Santa Madalena padeceu dessa falta de visão. Gastou-se muito além do que o estadista poderia arriscar, para um benefício que seria e será inexistente sempre: a rede de hospitais médios da região, se bem gerida, traria resultados muito mais efetivos para todos nós. A custo menor e sem fazer desaparecer do mapa a economia da cidade pólo, que mantém a região economicamente viva.

É visível, é comprovável na prática cotidiana, mas como sempre não se apresentam fatos e projetos que possam justificar a ideia contrária.

Fica o ex-Prefeito Carlos Moreira defendendo seu maior erro aos quatro cantos da cidade, e seus constrangidos aliados não tem sequer a chance de melhor orientá-lo neste sentido. Foi governante, e não estadista.

Faço-o eu: Carlos Moreira, esqueça aquela obra. Na hipótese do senhor ser eleito novamente no futuro, terá que entregá-la ou passar por mentiroso, já que não cansa de afirmar que é viável.

Se entregá-la, por puro voluntarismo, será o responsável por um dos mais retumbantes fracassos econômicos do município, e sua carreira política estará morta e enterrada. Com a perda, os pobres que o senhor tanto defende ficarão ainda mais pobres e necessitados, porque a cidade terá que tirar dinheiro de algum lugar para se reerguer.

Geralmente isso ocorre penalizando ainda mais a quem já tenha poucas posses. Se o senhor gosta "realmente" dos pobres, evite dar-lhes esperança agora para oferecer tortura econômica e financeira depois. Seria mais humano de sua parte, garanto.

Não é conversa de antipatizante. Um governo aparece ou não por seus próprios méritos e mazelas. Não é o "hospital" que lhe dará um passaporte para o desejado retorno futuro à Prefeitura. Anseio legítimo, diga-se, porque aberto a todos os cidadãos.

O governo atual tem seus próprios méritos e mazelas. Se for julgado ruim pela população, cairá por si mesmo. Se for julgado bom, se manterá por si mesmo.

Sua ausência ou presença neste processo, acredite, é irrelevante. estamos em 2010, não em 2001. As ferramentas de informação e controle social de agora são muito maiores, o Google não esquece nada, e há muitas pessoas interessadas de corpo e alma em elevar o nível de nossos políticos. Só os suicidas lutarão contra estes novos tempos.

Prefeito Gustavo Prandini, esqueça a rede de mídia. Ela lhe será desfavorável até a aposentadoria do Sr. Mauri Torres, capitão do que somos e do que não pudemos ser enquanto cidade. Protagonista de avanços memoráveis e de uma inércia escandalosa, dependendo do setor que formos avaliar. Em suma, uma pessoa, um ser humano normal. Não um super herói.

Por isso, Prefeito, eu humildemente sugiro que não tente ser herói. Não dá certo mais, nos tempos da política atual. Ela continua requerendo diálogo onde houver disposição para isso, mas requer firmeza de princípios nos demais casos. E murros na mesa e inflexibilidade de propósitos, quando os mesmos forem beneficiar a totalidade da população.

Como candidato a estadista, recomendo esquecer a Cavalgada, por exemplo. Para a Prefeitura, ela só representa alguns dias de fuga dos problemas diários. E dinheiro público alimentando o risco que deveria ser de empresários. Se fosse tão boa assim em retorno financeiro, sem incinerar dinheiro público, a Prefeitura seria deixada de fora, sempre. Pode acreditar.

Cito Adam Smith, o primeiro Pai da Economia: "O padeiro não levanta às 3 da manhã por amor à profissão, mas por amor ao dinheiro". É assim que a banda toca. Imagine seus aliados tentando explicar ao morador do São João, do Egito, do Cidade Nova, do Santo Hipólito, do Tanquinho, do Jacuí, que ele deve ser paciente porque não há dinheiro para obras de estrutura.

E este morador, que depois vai a uma festa bancada com dinheiro público, cujo lucro vai para o bolso do particular, vai pensar o que?

Para não ferir nem magoar ninguém, paro por aqui. Fica o convite para aqueles menos apaixonados continuarem o debate, se houver interesse real nele. Eu não consigo, sinceramente.

A agenda aberta: precisamos de estadistas na região inteira. E com urgência.

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