segunda-feira, 5 de abril de 2010

Dinheiro jogado no lixo


Como sempre acontece em momentos de turbulência, o Drops vai buscar elementos que clareiem de forma indireta o que acontece em João Monlevade. Nossa meta atual é lançar luz sobre o assunto que mais interessou à cidade, até que o Tribunal Regional Eleitoral decidiu que ele, a corte, era mais importante que nossa cidade inteira.

Vamos falar sobre o preço, puro e simples, de se pagar pela coleta de lixo domiciliar urbano e lixo infectante de qualquer natureza, em duas vertentes: serviço próprio - e público - ou serviço terceirizado.

O primeiro alerta: os preços são todos de 2010, mas a variação puramente inflacionária justificaria o resultado obtido desde o início do mapeamento: 2001. Explicando, em 2001 os preços citados aqui eram menores, mas bastaria investir as diferenças no mercado financeiro para atingir os mesmos rendimentos.

O segundo alerta: somente uma boa equipe de contadores poderia realizar os cálculos com exatidão econômica e financeira. Lidarei com médias ponderadas, que indicam o caminho. Mas o resultado exato não vamos conhecer até nos decidirmos por buscá-lo. Questões legais não foram consideradas, e podem ter influído nas decisões que foram tomadas politicamente, nos últimos dez anos.

A primeira série de cálculos diz respeito aos valores terceirizados, de 2001 a 2010, sendo relativa a dez anos de prestação do serviço:

Valor médio mensal considerado: R$ 100.000,00 (Cem mil reais)
Tempo de prestação do serviço: 120 meses (Jan/2001 a Dez/2010)
Custo médio total dos serviços para o município: R$ 12.000.000,00 (Doze milhões de reais)

Agora vamos considerar estes custos para que João Monlevade coletasse, por conta própria, seu próprio lixo domiciliar urbano e seu lixo infectante de qualquer natureza:

Vamos imaginar que o primeiro ano é o ano de iniciar efetivamente o sistema público de coleta. O Drops de Sanidade não faz picaretagens de falácia. Isto significa colocar no preço aquele tempo de seis meses necessário para adquirir a logística de trabalho. Portanto, só para implementar o serviço seriam gastos R$ 600.000,00 (Seiscentos mil reais) em média - Custo da coleta de lixo enquanto a cidade adquiriria a capacidade de assumir o serviço por conta própria.

2001 - Coleta terceirizada durante os trâmites burocráticos - R$ 600.000,00

2001 - Aquisição de 5 caminhões e 5 compactadores de lixo - R$ 850.000,00 (Pesquisa de preços na Internet, para me questionar, se for o caso)

2001 - Aquisição de dois veículos leves adaptados para coleta de lixo infectante - R$ 80.000,00

2001 - Pagamento de salários e encargos sociais para empregados: R$ 120.000,00*

*Foram considerados gastos de R$ 1000 reais/mês (salário + encargos) por empregado de limpeza urbana, durante os seis meses finais do ano. Seriam 16 trabalhando nos caminhões e 4 trabalhando nos veículos leves.

2001 - Gastos com combustível - R$ 300,00 por dia x 22 dias/mês x 6 meses: R$ 39.600,00

Total de gastos para implantar o sistema em 2001: R$ 1.689.600,00

Diferenças: serviço terceirizado em 2001 = R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2001 = R$ 1.689.000,00

Ou seja, R$ 489.600,00 de prejuízo aos cofres públicos em 2001. Se fosse para coletar lixo por apenas seis meses, nenhum administrador consciente faria este investimento. Ainda bem que administrar é pensar numa série histórica de eventos, em vez de enxergar só o aqui e o agora...

Vamos ver em 2002, como ficaria:

Pagamento de salários e encargos sociais para os empregados do serviço: R$ 280.000,00 (Aumenta sim, por causa de férias, 13.º, reajuste salarial se houver, etc...)

Gastos com combustível: R$ 100.000,00 (Aumento de preço dos combustíveis)

Diferenças:

Serviço terceirizado em 2002: R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2002: R$ 380.000,00

Opa! Lucro operacional de R$ 820.000,00 (oitocentos e vinte mil reais)! Descontado aquele prejuízo de R$ 489.600,00 do ano de 2001, teríamos R$ 330.400,00 sobrando no caixa do serviço em Dezembro/2002. Nada mal, hein?

Vamos para 2003, repetindo os valores médios (lembrem-se que os cálculos exatos não são a tônica da postagem, ela mostra os indicadores para estes cálculos)

Serviço terceirizado em 2003: R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2003: R$ 456.000 (20% a mais em combustível e encargos salariais)

Lucro operacional do sistema em 2003: R$ 744.000,00

Caixa do sistema em Dez/2003 = Lucro de 2002 + lucro de 2003 = R$ 330.400,00 + R$ 744.000,00 = R$ 1.074.400,00

Em Dez/2003 os veículos ainda estariam na garantia dos fabricantes, por isso não há previsão de gastos com eles. A partir de Julho/2004 haverá gastos computados para este fim.

Vamos lá:

Serviço terceirizado em 2004: R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2004 - R$ 547.200,00 (20% a mais em salários e combustíveis) + R$ 200.000,00 (Previsão de manutenção em veículos) = R$ 747.200,00

Lucro operacional em 2004 = R$ 452.800,00 - Percebam que duzentos mil reais é um valor muito alto para a manutenção deste veículos ainda novos, mas o Drops é realista em visão econômica...

Caixa do sistema em Dez/2004 = Lucros de 2002/2003/2004 = R$ 1.527.200,00

Não se preocupem com o fato de eu chamar de lucro o que é só superávit do sistema. sei a diferença entre ambos. É que, didaticamente, fica mais simples entender o raciocínio.

Encerramos 2004 com uma situação interessante: Já há caixa para renovar a frota, comprando TODOS os veículos novos, e ainda vai sobrar dinheiro, porque não haverá gastos com terceirização do serviço enquanto correm as licitações apropriadas.

Mas, por experiência própria, estes veículos só ficariam mesmo caros de manter a partir do quinto ano de operação, então vamos pensar em renovar TODA a frota só em dez/2005. Assim, mais um ano de superávit operacional é possível. Vamos a ele:

Serviço terceirizado em 2005: R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2005: R$ 896.640,00 (20% a mais em salários, combustíveis e manutenção dos veículos) . POR FAVOR PERCEBAM QUE A CURVA DE OPERAÇÃO DO SISTEMA, OBVIAMENTE, SE APROXIMA DO SUPERÁVIT ZERO, COMO ACONTECE NA VIDA CONTÁBIL REAL, PELO ENVELHECIMENTO DO PRÓPRIO SISTEMA.

Mesmo assim, 2005 ainda fecha com lucro de R$ 303.360,00 para o ano.

Caixa do sistema em Dez/2005: Lucros de 2002 a 2005 = R$ 1.830.560,00!!!

Como eu imagino que o Administrador Público seja mais inteligente que eu, ele vai aproveitar o ano de 2006 para extrair o último superávit deste serviço, e somente aí vai renovar a frota de veículos: Vamos conferir?

Serviço terceirizado em 2006: R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2006: R$ 1.075.968,00 (20% a mais em salários, gasto com combustíveis e manutenção dos veículos). Este cenário é irreal, de tão pessimista, mas a proposta é de mostrar que em condições normais o sistema funciona muito bem, sendo próprio e público.

E 2006 fecha com lucro de R$ 124.032,00.

O caixa do sistema fecha em Dez/2006 com R$ 1.954.592,00. Não fecha com muito mais dinheiro porque, a menos que fosse criada uma autarquia para aplicar este dinheiro, a Prefeitura teria utilizado o danado em outros investimentos.

Uma autarquia bem administrada teria fechado o caixa em Dez/2006 com uns R$ 2.500.000,00, e poderia repassar o dinheiro excedente para o caixa único do Tesouro Municipal.

2006 seria o ano de renovar a frota. Os veículos poderiam ser vendidos por algo muito próximo de 60 % do seu valor de compra, porque ainda estariam relativamente novos. Então, vamos iniciar 2007 com o seguinte caixa consolidado no sistema (Com autarquia gerenciadora, porque eu sou burro mas nem tanto)

R$ 2.500.000, 00 - R$ 930.000,00 (renovação da frota comprando à vista) + R$ 465.000,00 (50% do valor venal da frota "antiga", obtido com a venda dela) - R$ 288.000,00 (Salários e encargos sociais) - R$ 192.000,00 em combustíveis. Lembrem-se que de agora até Jan/2010 são mais três anos de equipamentos com garantia dos fabricantes, e que os valores de salários e de combustível já estão muito acima da realidade econômica que pudemos observar ao longo destes anos.

O caixa inicial de 2007 teria saldo de R$ 1.555.000,00

Serviço terceirizado em 2007: R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2007: R$ 945.000,00

2007 fecharia com lucro de R$ 255.000,00 e o sistema (Autarquia) fecharia o ano com lucro consolidado (2001 a 2007) de R$ 1.810.000,00. Será que daria para usar em outros setores da Administração Pública?

Pensemos em 2008:

Serviço terceirizado em 2008: R$ 1.200.000,00
Serviço próprio em 2008: R$ 480.000,00 (Repeti os valores de 2007 porque senão, meus cálculos ficariam muito abaixo da realidade econômica brasileira. Nada se reajustou em 20% fixos de 2001 a 2007, no Brasil)

Lucro de R$ 720.000,00 em 2008, fazendo o caixa da nossa Autarquia chegar a R$ 2.530.000,00 em Dez/2008.

2008/2009 foi biênio afetado pela crise financeira mundial. Vamos repetir os valores observados em 2007, e não nos afastaremos tanto assim da realidade que vivemos.

Lucros ao final do biênio 2009/2010: R$ 1.440.000,00
Caixa da Autarquia/Sistema em Dez/2010: R$ 3.970.000,00, sendo que com as aplicações financeiras corretas poderia chegar a, digamos, R$ 4.300.000,00

Vamos parar por aqui. Quem quiser brincar mais com os números sinta-se à vontade. O raciocínio raiz está bem explicado.

O que não está nem um pouco explicado é porque minha cidade, que precisa de dinheiro como qualquer outra, teve quase 4 milhões e meio do nosso dinheiro recolhido na forma de impostos e jogado fora no lixo. Mesmo sabendo que passou pelas mãos de dois administradores públicos no período.

Por isso, é bom ler o Drops inteiro, de vez em quando. Perdida em algum lugar aí no Blog, está uma das explicações. Nossos políticos escolhem muito mal seus assessores, trabalham muito mal as análises estruturantes e investem muito mal nosso dinheiro.

Não importa se a mídia dominante queira endeusar Carlos Moreira, para mim foi um péssimo administrador. Nada tenho contra a pessoa, é bom lembrar sempre. E não sou partidário de suas ideias e projetos efetivamente executados na cidade. Tenho medo, por exemplo, de imaginar estes mesmos cálculos aplicados ao investimento no Hospital que não pode funcionar sem quebrar João Monlevade.

Não importa se o grupo político de Gustavo Prandini quiser me massacrar, afirmando que estou remando contra. Mas igualmente administrou mal no ano de 2009. Com a atenuante de que estava aprendendo a engrenar a máquina. Sou partidário de suas ideias e projetos para o futuro de João Monlevade, mas Gustavo precisa refundar sua história política. Com ou sem cassação.

Porque nenhum dos dois poderia, sem sentir muita vergonha disso, desperdiçar meio milhão de reais por ano do dinheiro público, jogando este dinheiro no lixo. E não vou pesquisar nenhuma outra área de atuação pública.

Minha cidade tem que acordar para fazer este trabalho por conta própria. Eu não sou salvador de pátria nenhuma. Ninguém é, quando realiza sozinho. Uma sociedade só pode crescer quando está de mãos dadas.

Agenda oculta? Precisamos aprender, urgentemente, a vigiar os vigilantes. E peço ao Zé Henriques que, se possível, faça algo semelhante no sistema de Saúde. Este buraco da má gestão é uma das batalhas dele também. Claro que, neste momento, Zé Henriques deve estar assustado com o grande barulho que se faz em política. Mas vai se recuperar, Monlevade precisa muito dele com a cabeça fria e desanuviada. Um abraço, Zé!

Um comentário:

RRunner75 disse...

Percebo meu caro Célio, que tens a visão de uma Monlevade, surrealista, ao considerarmos o cenário político local. Sinceramente, do pouco que acompanho por aqui, não vi em momento algum um cidadão que se propôs a trabalhar politicamente nesta cidade, quase todos que passaram pela prefeitura e pela câmara nos últimos tempos, o fizeram tão somente pelo cargo, salário e umas migalhinhas pós política...
Muito há que ser trabalhado em Monlevade, para que ela seja do povo monlevadense, e não de uns poucos que pensam manipular as carências e esperança do povo em proveito próprio, quer seja aumentar clientela de consultório, de farmácia, feira, borracharia, etc...
Creio que não há no cenário atual de Monlevade, nenhum, dentre os homens e mulheres que estamparam suas fotos no cenário político recente, que se faria este tipo de ADMINISTRADOR, capaz de pensar e agir de forma equilibrada, sensata e honesta, no que diz respeito aos cofres deste Município!

Mas, ainda acho que chegaremos lá, e queira Deus que não nos demoremos a isto.