Estamos vivenciando uma era de incerteza nunca experimentada em João Monlevade. Trata-se de uma maldição de ciclope: há um olhar, uma visão. O que não há é garantias de que este olho único e gordo, esteja vendo alguma coisa, além do que enxerga no cotidiano.
O ciclope vive a contradição de ter, não tendo. De ser, não sendo, na medida em que reside mais na mitologia que na vida concreta. Mas, pelos Céus, um cronista não vive só do concreto. Ou seria um concretista apenas. O cronista vive do surreal e do que ele pode ver, além do que enxerga, com dois olhos.
Um ciclope pode argumentar que nossos dois olhos são exagerados, já que o cérebro funde as imagens em uma só. Pobre ciclope... Não imagina que o segundo olho produz nuances de trimidensionalidade, de profundidade e de textura para as coisas.
Enxergando como ele enxerga, tudo muito bidimensional, muito maniqueísta, muito preto ou muito branco, o ciclope pode esbarrar na porta do paraíso, mas não vai ver a chave. Não vai sentir o tapete de boas vindas, nem vai observar o vapor saindo do bule de café.
Ter um olho só, ainda que grande, ainda que gordo, é a maldição dos que nascem abençoados para enxergar, mas condenados a não ver.
2 comentários:
Bela metáfora, caro Célio. Mas mesmo assim, não vou resistir à piada. Em terra de cego, quem tem olho é cíclope.
Talvez essa analogia caiba bem ao sistema de governo que transparece nesse período em João Monlevade, uma visão centralizadora, única, unidirecional, que não percebe coisa alguma em redor, seguindo em linha reta ao fundo do poço...
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