Vivemos nela. Há anos observamos a produção de dossiês, pastas, inquéritos e outros apetrechos de apologia da vergonha serem atirados para o alto, na expectativa de que caiam sobre as cabeças opostas. Nunca caíram.
No Brasil, denunciar não vem de cidadania, mas de velhacaria. Se o naco não cabe na boca, sobra espaço para vociferar uma denúncia. Se couber, a mastigação impede a produção de falas. Animal alimentado é animal quieto, todo mundo sabe disso.
Eu não sou iconoclasta político. Não acredito que o Brasil agora está nas trevas, porque o Brasil não estava nas trevas quando José Sarney assumiu em 1985. Não estava nas trevas quando Collor, Itamar e Fernando Henrique assumiram. Talvez o Brasil nem estivesse nas trevas antes disso. É possível que estejamos, apenas, engatinhando muito devagar em direção à seriedade.
Sinto-me mais desapontado agora porque, em 1991, o setor social que mais se movimentou pelo expurgo de Collor é o que hoje se assenta sobre pilares muito iguais de bandalheira. Mas não inventou a bandalheira. Acomodou-se a ela e aprendeu a vê-la com outros olhos. E armadilhas...
Leis de papel, homens de brinquedo. Este é o nosso maior pecado. Onde há a punição certeira não há tantos homens dispostos a correr o risco do crime. E punição certeira, com justiça rápida, é algo que não vejo se desenhar no horizonte brasileiro tão cedo. Minha luta já não é por mim, mas pelos filhos dos meus filhos.
Se ninguém afirmou antes - o que duvido - é hora de abraçar a realidade. Estamos todos mortos. Não vai mudar para nós, mesmo que haja revoluções semanais. Tantos anos de embriaguês não serão curados com dias de reabilitação.
Vamos viver na Denuncilândia S/A até o fim de nossos corpos. Do fim de nossa vidas úteis já me convenci a não escrever tanto. É ponto pacífico. O que não podemos é parar de tentar, porque uma verdade imutável permanece. Homens de bem, ao não ocupar espaços importantes, permitem que estes espaços sejam ocupados por qualquer espécie.
Principalmente por homens-canalhas de brinquedo, especialistas na arte de gargalhar das Leis de papel.
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