sexta-feira, 5 de junho de 2009

3? E por que não para a vida toda?

Volta a tramitar em Brasília a Proposta de Emenda à Constituição que autoriza o presidente Luis Inácio a disputar um terceiro mandato. Como toda emenda, ela tem a característica de enfeiar o tecido original. Como toda safadeza, abre o leque para todos os detentores de cargo executivo, o que minimizaria a situação do Presidente como pleiteante único.

Não vou discutir aqui a pessoa de Luís Inácio que encontra-se acima da minha em milhões de degraus. Ele governa o país e eu luto para governar minha vida. São instâncias bem diferentes em dimensão e importância.

O que quero discutir é o sistema. A democracia é tão bela em sua construção que ela abre espaço para que seus inimigos queiram vê-la destruída. E é tão frágil e dependente de todos que todos, sem exceção, devem defendê-la dos oportunistas.

A nação que se descuida de suas instituições está condenada a ser uma Cuba ou uma Coréia do Norte, dentre outros exemplos menos nobres. Se são opções tão ótimas, desejo a todos que as admiram que, encarecidamente, mudem-se para lá. Deixem-nos com nossa ignorância.

Os que ficarem, lembrem-se de defender a instituição da democracia. A nossa veio conquistada de forma menos dura, mas não menos renhida, que muitas outras espalhadas pelo mundo. Por isso nasceu precisando de ajustes, que aos poucos estamos produzindo.

Um destes ajustes foi a reeleição. Como tudo o mais no Brasil, veio de forma errada, para que Fernando Henrique se beneficiasse, enquanto ainda Presidente. Somos tão idiotas que promovemos mudanças importantes a toque de caixa, enquanto um dos pilares da verdadeira democracia é que algumas mudanças são tão cruciais, que só poderiam obter validade no futuro, quando os maiores interessados teriam que novamente disputar os novos direitos.

A reeleição por um período é um instituto consolidado na maioria das democracias do mundo. Portanto, não é de todo imprestável. Se o mundo a utiliza e valida, é bom que o Brasil a utilize.

A reeleição da reeleição, por sua vez, só existe em regimes tiranocráticos. Eu me recuso a criar meus filhos em um sistema político baseado no casuísmo e na tiranocracia. Sei que eles merecem mais.

E me recuso a acreditar que nossos políticos tenham a legitimidade para propor este tipo de manobra agora. Não porque lhes falte o caráter apropriado para a bandidagem, muito pelo contrário. É porque nos falta o merecimento deste castigo. O que fizemos de tão devastador e ruim para justificar esta punição?

Se não fossem os gregos, estaríamos agora ajoelhados diante de monarcas persas volúveis. Nossa vida fluiria ao sabor dos humores dos reis. Hmmm, tô fora.

Deixarei para alguém mais esperto do que eu a tarefa de explicar melhor porque, dentre todas as maracutaias possíveis, esta não poderá jamais ser aceita pelos brasileiros.

Só vou explicar que, como todo mortal, um tirano se vai com pouco tempo - 30 ou 40 anos, na maioria das vezes - mas a tirania, como o plástico no meio ambiente, pode levar séculos para se desintegrar.

Um comentário:

Marcelinho disse...

Caro Amigo Célio,
excelente este seu post, e também compactuo com seus dizeres.
Já faz algum tempo, pouco mesmo ante os rumores de um terceiro mandato do Lula, e agora uma outra postura, da permanencia do PT no poder através da Dilma, me preocupo pela implantação de uma ditadura (à qual dou o nome de ditadura do proletariado, mas que não tem nada a ver com quem realmente trabalha).
Vários são os editoriais, em vários jornais de renome no país que estão tratando deste assunto já a algum tempo, é que como possuímos memória curta (ou até mesmo não a temos), não prestamos a devida atenção, principalmente, aos fatos.
Temos que observar que a ditadura militar terminou há bem pouco tempo (mais ou menos 25 anos), e como você disse acima "...como todo mortal, um tirano se vai com pouco tempo - 30 ou 40 anos, na maioria das vezes - mas a tirania, como o plástico no meio ambiente, pode levar séculos para se desintegrar."
Temos resquícios fortemente presentes, maquiados, mas, presentes.
Abraços.